PEDRO LYRA – Entrevista 4


PEDRO LYRA

No lançamento de Confronto – Um diálogo com Deus, na Academia Brasileira de Letras, em maio de 2005.

ENTREVISTA

Autógrafo para Jorge Amado, no lançamento de Sincretismo – A poesia da Geração-60 em Salvador, setembro de 1995.

SELMO VASCONCELLOS – Quais as suas outras atividades, além de escrever?

PEDRO LYRA – Ia dizendo: escrever! Pois as outras duas – magistério e jornalismo – também são formas de escritura. Praticando três gêneros – poesia, ensaio, crítica – é quase impossível fazer outra coisa. Não porque falte tempo, mas porque são muito absorventes, como prazerosas e realizantes: todo dia estou escrevendo um poema, desenvolvendo um ensaio, elaborando uma crítica. O resto é leitura… viagem… encontros… chope… amor…

SELMO VASCONCELLOS – Como surgiu seu interesse literário?

PEDRO LYRA – Como a quase todos os poetas, ainda na infância. Nos livros didáticos, ainda no curso primário, o que mais me interessava eram os raros poemas que apareciam numa ou noutra página de uma ou outra matéria. Eu lia aquilo (o mais freqüente era Camões) gostava, copiava, decorava – e acabei pensando que também podia escrever. E comecei, lá pelos 8 anos. Como sempre, os primeiros versos foram para as primeiras namoradas. E nunca mais parei.

SELMO VASCONCELLOS – Quantos e quais os seus livros publicados dentro e fora do País?

PEDRO LYRA – Aí vai a relação completa, nos três gêneros, sem contar as traduções e organizações:

POESIA:
Sombras – Poesia da dúvida, 1967. Foi a minha estréia – estranha estréia: poemas de fundo metafisicista, marcado pela forte influência de Schopenhauer, para um jovem de 22 anos.
Doramor – Uma trajetória da paixão, 1969. É um poemeto em 10 segmentos, sintetizando um caso de amor.
Poema-Postal. 1ª série: Fortaleza/Rio, 1970. 2ª: João Pessoa, 1971. 3ª: Rio, 1986. 4ª: Lisboa, 1987. 5ª: Paris, 1989. 6ª: Rio, 2009. É uma experiência feita na época de ouro da poesia de vanguarda – o poema retirado do livro, onde digo que está enterrado, e colocado no postal, para uma divulgação universal pelo correio. Hoje, com a Internet, está mesmo universalizado.
Decisão – Poemas dialéticos, 1983. São poemas sociais, de fundo marxista, ainda ao tempo do capitalismo nacionalista e monopolista.
Musa lusa – Sonetos do amor, 1988. Publicado em Lisboa, são sonetos não de, mas do amor, mais conceituais que confessionais.
Desafio – Uma poética do amor, 1991. Reedição revista e bem ampliada de Musa lusa.
Contágio – Poesia do desejo, 1993. Uma coletânea de poemas de amor, agora em verso livre.
Errância – Uma alegoria trans-histórica, 1996. É um poema épico-dramático, confrontando um personagem pré-histórico e um pós-moderno, cada um falando do estágio de sua civilização.
Visão do Ser – Antologia poética com Fortuna crítica, 1998.
Jogo – Um delírio erótico-metafísico-econômico ou Uma aventura em versifrases, 1999. Um poema dramático, que se passa no cassino do Estoril, de Lisboa, onde um jogador – apavorado por estar perdendo tanto – vai refletindo aleatoriamente sobre o amor, sobre a vida e sobre sua situação.
Vision de l’Etre – Anthologie poétique, 2000. Publicada em Paris, é uma versão reduzida e bilíngüe de Visão do Ser, com organização, tradução e prefácio de Catherine Dumas, e apresentação de Anne-Marie Quint, professoras de Lusofonia da Sorbonne.
Confronto – Um diálogo com Deus, 2005. Outro longo poema, questionando a ideia de Deus, com tudo que dela deriva: a origem do universo, a condição da Terra, o sentido da vida, o destino do ser, as conseqüências da morte – o nada ou a eternidade, o inferno ou o paraíso. Em resenha na Revista Brasileira, da ABL, o crítico português Fernando Cristóvão, catedrático de Literatura Brasileira da Universidade Clássica de Lisboa, aproximou Confronto da Divina comédia.
Argumento – Poem´y´thos globais, 2006. São breves poemas sobre globalização, liberalismo e terrorismo, portanto agora sobre o capitalismo já globalizado e unilateralista. Em carta ao jornal Rascunho, de Curitiba, um leitor os aproximou de Camões, na talvez maior satisfação crítica que já provei. Para mim, Camões é o maior poeta de todos os tempos.
50 poemas escolhidos pelo autor, 2006.

CRÍTICA:
Poesia cearense e realidade atual, 1975. Análise de 13 poetas cearenses então vivos, dos Grupos CLÃ (Geração de 45) e SIN (Geração-60) da minha terra.
O real no poético, 1980. O real no poético-II, 1986. Textos de jornalismo literário, publicados sobretudo no Jornal do Brasil e na Revista Colóquio/Letras de Lisboa.
O dilema ideológico de Camões e Pessoa, 1985. Uma interpretação das posturas ideológicas dos dois maiores poetas da nossa língua, centrada no confronto entre imperialismo e igualitarismo n´Os Lusíadas e nas tendências fascistóides do heterônimo Alberto Caeiro.

ENSAIO:
Utiludismo – A socialidade da arte, 1976. Uma análise da natureza e da função social da arte em nosso tempo.
Literatura e ideologia – Ensaios de sociologia da arte, 1979. Coletânea de ensaios destacando o envolvimento ideológico da literatura e a necessidade de consciência posicional do escritor.
Conceito de poesia, 1986. Uma análise da poesia como substância, uma substância imaterial independente do homem, anterior à linguagem, presente na natureza ou na sociedade e objetivada no poema pelo trabalho do poeta.
Sincretismo – A poesia da Geração-60, 1995. Uma formulação do conceito literário de geração, com a propositura de uma escala geracional, seguida de uma antologia com 45 poetas da Geração-60, que identifico como aquela nascida entre 1935-55 e estreante entre 1955-75, ressalvando precoces e tardios e incorporando alguns pela fisionomia geracional.

A SAIR:
Poema e Letra-de-música – Um confronto entre duas formas de exploração poética da palavra. Conclui pela impertinência de se considerar a letra-de-música como poema, através da demonstração das diferenças em 14 campos estéticos.
O transe da poesia – Da grandiosidade do clássico à banalidade do pós-moderno. Uma análise do percurso da poesia até o seu estado atual, deslocada do cotidiano pela cultura de massa (sobretudo a música popular e a tele-arte) superprivilegiada pela mídia, banida do mercado cultural pelo silêncio acovardado da tevê e amesquinhada pelo minimalismo triunfante.
A tevê e o fim da era do amor – A banalização do sexo no cotidiano e no mercado cultural. Uma análise das relações interpessoais depois da revolução sexual, com a constatação da insuficiência de afeto sufocado pela obsessão do prazer, e sua exploração mercadológica pela tevê.
E como afirmei antes que estou sempre escrevendo, acrescento 3 em elaboração:
O Poderismo – Violência e privilégio na rua e na política. Um ensaio sobre o triste estado social e político do nosso país hoje, assolado pela violência na vida privada e pela corrupção e impunidade no espaço público. O título é um neologismo, para designar a “ideologia” do político-padrão: a linha do governo da hora.
Dialética da poesia – Da transitividade do ser à transfiguração da consciência. Este é a minha
visão definitiva da poesia. Na origem, foi a minha tese de doutorado, defendida em 1981, desenvolvida até hoje. Publiquei apenas um resumo da primeira parte, que é o livro Conceito de poesia. Deverá ficar com umas 500 páginas.
Plenidade – Poema-construção. É o meu poema-síntese de tudo. Uma visão da evolução da humanidade, da eclosão do universo a um futuro apenas imaginado e desejado. Incluí algumas passagens na antologia Visão do Ser. Hoje, está com umas 70 páginas e não precisarei fazer mais nada depois dele.

SELMO VASCONCELLOS – Qual o(s) impacto(s) que propicia(m) atmosfera(s) capaz(es) de produzir literatura?

PEDRO LYRA - A resposta a esta pergunta fundamental é justamente a base da Dialética da poesia. Chamo esse impacto de “transitividade do ser”: a propriedade que certos objetos/situações têm de, por qualquer um de seus aspectos, sair de si mesmos e se projetar sobre a sensibilidade do homem. São portanto os aspectos transitivos do ser, que derivam das 3 categorias fundamentais da existência, a saber:
CRONICIDADE – que define a existencialidade do ser e o situa no tempo, cronológico ou psíquico;
MAGNITUDE – que define a dimensão do ser e o situa no espaço, físico ou mental;
FISIONOMIA – que oferece o ser à percepção dos sentidos e da razão, situando-o num tempo-espaço definido.

Cada categoria encerra 2 aspectos transitivos opostos:
Cronicidade – a NOVIDADE e a ANTIGUIDADE;
Magnitude – a GRANDEZA e a PEQUENEZ;
Fisionomia – a BELEZA e a FEIÚRA
Ninguém passa indiferente a um objeto/situação dotado de qualquer um desses atributos. É o impacto que eles causam que provocam no poeta o estado de espírito propício à criação. Qualquer que seja o tema do texto, o poeta o explora por um ou mais desses atributos do ser, privilegiando a novidade, a beleza e a grandeza, positivas ou negativas, ontológicas ou existenciais. Nos outros indivíduos, eles provocam apenas uma reação de atração ou repulsão.

SELMO VASCONCELLOS – Quais os escritores que você admira?

PEDRO LYRA – São muitos – todos os grandes nomes da literatura universal. Agora, os preferidos são: no romance – Dostoievski, Eça de Queirós e Jorge Amado; no conto – Machado de Assis e Oscar Wilde; na poesia, em ordem histórica, os que releio com frequência – Khayyam, Petrarca, Camões, Byron, Hugo, Musset, Castro Alves, Antero, Raul de Leoni, Ricardo Reis, Brecht e Maiakovski.

SELMO VASCONCELLOS – Qual mensagem de incentivo você daria para os novos poetas?

PEDRO LYRA – Um breve e único, com tudo que ele implica; não desistir. Mesmo nas maiores adversidades, ele não desistirá, se tiver uma vocação forte e um grande talento. Sem esses dois requisitos, é melhor se dedicar a outra coisa.

POEMAS

Diante da livraria L´Harmattan, no lançamento de Vision de l’Etre – Anthologie poétique em Paris, em novembro de 2000.

VISÃO DA FELICIDADE

Nunca sofri por falta de comida.
Nunca tive um problema de saúde. Nunca precisei
atender a uma intimação, exceto das minhas musas,
nem dar explicações, exceto aos meus alunos.

Pousava e voava ao abrigo das horas inconstantes.

Não desabou nenhuma torre sobre minha cabeça
nem me atingiu nenhuma bala errante.
Não me faltou o chão quando ia a meus encontros
nem o mar me misturou ondas com nuvens.

E sobrevivi do que gostava.

Tinha no quarto os livros
dos meus poetas: uns amigos, bem poucos,
e Camões, Khayyam, Petrarca, Antero, Byron, Hugo, Musset, Castro Alves, Leoni, Maiakovski, Reis, Brecht
– todos românticos,
e eu era pragmático;
mas, quando abria, não queria fechar a Divina comédia, a Jerusalém libertada, o Paraíso perdido, o Fausto, A legenda dos séculos
– todos místicos,
e eu era ateu.

E, com freqüência, conferia a lenda de Eros e Psiquê.

Era bom ter uma mulher em casa:
atrelar desejo a chance
e ver os meninos crescerem!
Era bom estar sozinho em casa:
abrir chances ao desejo
e ver os meninos se espalharem pelo mundo!
(O drama era escolher,
desejar uma praia quando estava na outra,
ou sem poder estar na outra.)

Mas nunca morri por amor, nem uma vez.

E sempre estive embriagado:
de amor, de poesia, de jogo, de dialética,
até de ideologia,
de desejos, de paisagens, de lembranças,
de fumo
ou chope mesmo.

Mesmo assim,
consegui concretizar alguns sonhinhos
e sempre soube o que fazer da festa e da solidão.

É,
talvez eu seja uma raridade:
– um sujeito
quase
não-infeliz.

Alexandre, César, Nero, Aníbal, Átila, Khan, Napoleão, Hitler, Mussolini, Stalin, Bush,
senhores de todos os quadrantes, de todos os matizes,
que se quiseram donos do universo,
não precisamos de mais:
– basta isso.

(Mas a luz era tão fraca
que eu liguei o botão – e estava acesa.)

(De Argumento – Poemythos globais, 2006)

DA HUMANA CONDIÇÃO
(Rogo 53)

Mas se teu Reino
não é uma recompensa nem um prêmio
e sim uma construção,
e não está num Após nem num Além
mas num Agora e num Aqui
– em nós mesmos –
e temos nós que construí-lo dia a dia,
vivendo como vivemos
e sendo como somos, então
Inferno e Paraíso são apenas projeções,
não transcendentes redutos: simples imagens
de nosso estar-na-Terra,
de nosso ser-com-os-outros.
E não serás um Ser (em si):
apenas uma Idéia (em nós).
E a Eternidade é somente um hiper-agora, impassável,
o sempre-presente.
E o Infinito é somente um hiper-aqui, impreenchível,
o todo-em-volta.
E o Inferno é mesmo os outros.
O Paraíso também.
E o ser humano é mesmo este misto desequilibrado entre o sublime e o mesquinho,
breve lampejo
entre uma treva sem princípio e uma treva sem final.
E somos livres, apenas do futuro ignorantes,
sem mistério a desvendar.
E não há prêmio nem castigo, transferidos:
apenas opções e conseqüências, imediatas.
E a vida é este intermitente desafio:
o aproveitamento/desperdício de energia e liberdade,
sem hipótese de reservas;
esta cega seqüência de desejo e luta,
o insaciável desejo
e a incessante luta;
para a conquista ou para a falta,
a precária conquista
ou a freqüente falta.
E, de tentativa em tentativa,
o lacunoso desfrute
ou a mutilante frustração.
E, na falência da aventura,
a certa perda.
E o desengano.
E a decomposição, em pó ou cinza.
E o Nada.
Nada além, aquém.
E a Existência é o todo do tempo.
E a Terra é o todo do espaço.
E não precisa nem da idéia de Eternidade e nem da de Infinito
(exceto os do Sonho).
E tudo é mortal, exceto o trans-viável.
E não há Causa primeira nem Sentido último,
que é sempre um trânsito,
de sempre,
para sempre
e temos só que nos equilibrar.
E esta é a nossa condição,
sem pessoal ou coletiva culpa.
É parca,
é muito parca.
E não muda
por mais que a g
ente mude.

Mas, descendente de símios,
podia o homem ser mais nobre?
Rebento de uma explosão,
podia o mundo ser mais firme?
Originária do acaso,
podia a vida ser mais justa?
E se, sem Ti, não tem sentido,
talvez nem careça:
basta ter duração.
E que tudo se esgote em seu lampejo, sem reflexo.
E, no lugar da transcendência da alma,
a imanência do corpo.
E, por sobre o consumo do tangível,
a latência do inefável.
E é esse o seu sentido.
Pode ser muito pobre, mas é o que ela ostenta:
o da luminescência, ao invés do da Luz.
Temos só de evitar que se desfaça aos ventos em contrário.
E estamos, apenas.
E passamos.
E o Diabo é que sofremos que não basta estar.
E que é penoso passar.

(De Confronto – Um diálogo com Deus, em 57 rogos)


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4 thoughts on “PEDRO LYRA – Entrevista

  • Responder
    Marisa Zanirato

    Caríssimo Professor Pedro Lyra,
    Mais que uma simples entrevista, leio aqui uma preciosa aula de Poética. E, assim sendo, permito-me uma pergunta:
    As categorias da Dialética da Poesia podem sustentar também uma Dialética da Arte?

    Selmo, obrigada por ter me proporcionado a oportunidade de assistir a esta aula.
    Abraços aos dois.
    Marisa.

  • Responder
    Chris Herrmann

    Aos meus queridos amigos poetas Pedro e Selmo, deixo aqui meu abraço cheio de carinho e admiração pela belíssima entrevista.

    Pedro, você é uma “aula viva”, não foi à toa que vc foi meu professor de Teoria Literária da UFRJ e foi com quem muuuito aprendi. Obrigada por tudo, inclusive pelo comentário introdutório (e com uma crítica que amei!) do meu livro “Voos de Borboleta”, uma coletânea de haicais. Você é o orgulho de qualquer aluno(a)!! :-) )

    Beijos,
    Chris

  • Responder
    Pedro Lyra

    AO SELMO. – Eu é que tenho de agradecer, caro poeta: você me deu a oportunidade de contactar com gente tão especial.
    À MARISA. – Certamente que sim. Sendo uma das artes, o que se refere à poesia em particular pode se referir à arte em geral. Todos os artistas são motivados por um ou mais daqueles 6 aspectos transitivos do ser. E muito grato por sua leitura.
    A LUAR LIAN. – Suspeitando logo que se tratasse de um pseudônimo, fui conferir, Márcia. Muito grato por sua única palavra, que sozinha diz mais que certas muitas outras. Eu estou na origem do grupo “Poesia Simplesmente”.
    À CHRIS. – Bom, com a Chris o diálogo já vem de outros tempos. Grato abraço, poeta/amiga.